Pimenta-rosa transforma o norte capixaba
O norte do Espírito Santo tem visto uma transformação impulsionada por um fruto pequeno, vermelho e aromático: a pimenta-rosa. Nativa da Mata Atlântica e comum

O norte do Espírito Santo tem visto uma transformação impulsionada por um fruto pequeno, vermelho e aromático: a pimenta-rosa. Nativa da Mata Atlântica e comum nas áreas de restinga, ela deixou de ser apenas um fruto encontrado espontaneamente para se tornar uma cadeia produtiva promissora para o agronegócio capixaba. Hoje, o produto está presente em pratos sofisticados, drinks, óleos essenciais e perfumes internacionais.
A história da pimenta-rosa na região começou quase por acaso. Na Fazenda Lagoa Seca, em São Mateus, no fim dos anos 1980, um pequeno vidro com especiarias chamou a atenção do avô da produtora rural Ana Paula Martins Machado. Sentado à mesa, ele desconfiou que o produto importado era a aroeira, planta considerada na época “praga de mato” e sem valor. Após coletas na região do Sapê do Norte e envio do material para a Europa, veio a confirmação: o Espírito Santo possuía uma pimenta-rosa comparável às mais valorizadas do mundo.
Apesar do nome popular, a pimenta-rosa não é uma pimenta, mas o fruto da árvore aroeira. Segundo a coordenadora de Recursos Naturais do Incaper, Fabiana Gomes Ruas, a planta encontrou no norte capixaba condições ideais de temperatura, vento e solo. “Ela encontrou aqui as condições ideais. Produz aqui como em nenhum outro lugar”, afirma. A pesquisadora destaca que São Mateus combina solo arenoso, umidade no subsolo e clima quente, fatores que favorecem a produtividade e a concentração dos aromas.
O aroma característico da pimenta-rosa foi o que chamou a atenção da indústria internacional. O fruto ganhou espaço na gastronomia e depois nos cosméticos e perfumes. Em 2024, após cinco anos de pesquisas, Ana Paula Martins foi anunciada como fornecedora de pimenta-rosa para uma linha de perfumes da Natura. “Eles falaram assim: você não pode contar pra ninguém”, lembra Ana Paula, que se emocionou com o reconhecimento.
A trajetória de Ana Paula no campo foi marcada por desafios. Administradora de formação, ela entrou na agricultura sem experiência e, no início, enfrentou a falta de informações técnicas sobre o cultivo comercial. Para lidar com a falta de mão de obra, ela criou uma máquina própria para ajudar na colheita, equipamento que hoje é utilizado por outros produtores. “Veio uma mulher que não entendia nada de agricultura começar a produzir bem e virar referência”, resume.
O desenvolvimento técnico da cultura foi essencial para transformar o extrativismo em negócio. Estudos conduzidos pelo Incaper a partir dos anos 2000 ajudaram a definir manejo, poda, espaçamento e seleção genética. Atualmente, produtores conseguem colher já no primeiro ano de plantio. Em 2023, a pimenta-rosa de São Mateus conquistou a indicação geográfica (IG), reconhecimento que, segundo Fabiana, permite comercializar o produto com valor até 30% maior.






