Erro em clones reduz produção de látex, revela estudo
Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Agronômico (IAC) revelou que a baixa produtividade de látex

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Agronômico (IAC) revelou que a baixa produtividade de látex em seringueiras clonadas pode estar relacionada a um erro comum entre produtores. A pesquisa, publicada no periódico The Plant Genome, mostrou que o porta-enxerto, a planta que sustenta o clone enxertado, atua ativamente na fisiologia da seringueira e pode determinar grandes diferenças na produção de borracha natural.
A borracha natural continua sendo indispensável para usos como pneus de aeronaves e equipamentos médicos, apesar da borracha sintética. O Brasil, que já foi líder na produção, hoje responde por menos de 2% da produção mundial, atrás de Tailândia, Indonésia, Vietnã, China e Índia. O país não consegue abastecer o mercado interno e precisa importar a matéria-prima. O epicentro da produção brasileira se deslocou da Amazônia para São Paulo, onde muitos fazendeiros plantam seringueiras como uma espécie de poupança de longo prazo, já que a árvore leva cerca de dez anos para entrar na fase produtiva plena.
O problema, segundo o estudo, é que muitos produtores se surpreendem com a baixa produtividade das árvores mesmo usando os melhores clones disponíveis. O pesquisador Wanderson Lima Cunha, primeiro autor do artigo, explicou que a pesquisa investigou os mecanismos moleculares da interação entre o enxerto e o porta-enxerto. “Nossos achados evidenciam que os porta-enxertos não são apenas suportes para fixação dos clones, mas sim agentes ativos na regulação da expressão gênica do material enxertado, com impacto direto na produtividade e adaptabilidade da cultura”, afirmou.
Os pesquisadores analisaram o transcriptoma das árvores e identificaram milhares de genes cuja expressão varia conforme a combinação entre enxerto e porta-enxerto. Foram encontrados genes exclusivos ligados à produção de látex e vias metabólicas, como a do jasmonato, um hormônio vegetal. A pesquisa também mostrou diferenças nas redes de coexpressão gênica, indicando que o porta-enxerto atua na modulação da fisiologia da planta, além do suporte físico.
A professora Anete Pereira de Souza, do Departamento de Biologia Vegetal da Unicamp, destacou que o desconhecimento sobre a importância do porta-enxerto causa prejuízos. “Quando o agricultor vai comprar a muda, ele pede o clone, mas não pede o porta-enxerto. E ninguém o informa sobre isso. Como a seringueira demora anos para entrar em produção, o erro só é percebido tarde demais”, disse. Com base nos resultados, o IAC está preparando uma cartilha para orientar viveiristas e produtores sobre as melhores combinações entre clones e porta-enxertos. Os autores defendem também políticas que exijam a identificação do porta-enxerto na venda de mudas.


