Casca de laranja vira ouro: pesquisa revela alto valor
Uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que a casca de laranja, principal resíduo da indústria citrícola, pode ser aproveitada por in

Uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que a casca de laranja, principal resíduo da indústria citrícola, pode ser aproveitada por inteiro para fazer alimentos, cosméticos e biocombustíveis. O estudo segue o conceito de biorrefinaria e economia circular.
O trabalho é da professora Rosana Goldberg Coelho, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp. A ideia é extrair diferentes componentes da casca, reduzindo o desperdício e aumentando o valor do que seria jogado fora.
"As nossas linhas de pesquisa são sempre voltadas ao aproveitamento sustentável dos resíduos. Nós tentamos valorizar e agregar valor aos diferentes resíduos do agronegócio", disse Goldberg.
Biorrefinaria integrada
O primeiro componente extraído é a pectina, uma fibra solúvel presente na casca de frutas, muito usada pela indústria de alimentos em geleias e bebidas.
Os pesquisadores também aproveitam a hemicelulose para produzir xilooligossacarídeos. Esses açúcares funcionais têm efeito prebiótico: não são digeridos pelo organismo e servem de alimento para bactérias boas no intestino.
Na última etapa, a celulose que sobra pode ser hidrolisada para virar glicose e depois etanol, ou ser usada para gerar biogás e energia. "O que pensamos foi em uma biorrefinaria integrada, aproveitando todas as frações da casca de laranja", resume a pesquisadora.
Aplicação em cosméticos
Segundo Rosana Goldberg, os xilooligossacarídeos também podem ser usados em cosméticos, especialmente em hidratantes, por sua capacidade de reter água. "Eles podem ser usados em hidratantes, eles têm esse efeito prebiótico e favorecem bactérias benéficas que a gente tem na pele", afirma.
Economia circular
O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de laranja, com grande parte da produção em São Paulo. Isso gera muito resíduo da indústria de suco. Hoje, a maior parte das cascas vai para ração animal. Para a pesquisadora, ampliar os usos pode reduzir desperdícios e criar novos negócios.
"Temos bastante matéria disponível, a maioria é destinada para a ração animal. Isso poderia ser valorizado, ter um produto de alto valor agregado que pode ser utilizado para um cosmético", destaca.
Desafio para a indústria
Apesar dos estudos mostrarem viabilidade econômica, a produção ainda não é feita no Brasil. O principal entrave é o custo do processo, que exige enzimas na hidrólise.
"É um processo de hidrólise que precisa de enzima, então tem um custo elevado. Todos os resíduos que vêm de fonte vegetal, que possuem parede celular, hemicelulose e celulose, conseguimos fazer esse processo de extração. Mas a vantagem da casca de laranja é que ela também contém pectina, que tem alto valor agregado, o que permite desenvolver uma tecnologia capaz de aproveitar as duas coisas", explica.
Ela lembra que os prebióticos já são produzidos em larga escala na Ásia, principalmente na China, enquanto o mercado brasileiro ainda está se desenvolvendo.


