Greening na Flórida: lições para SP após queda de 95%
A Flórida, que por décadas foi referência mundial em citricultura, viu sua produção de laranjas despencar 95% em pouco mais de 20 anos. Na safra 2003/04, o esta

A Flórida, que por décadas foi referência mundial em citricultura, viu sua produção de laranjas despencar 95% em pouco mais de 20 anos. Na safra 2003/04, o estado norte-americano produziu 242 milhões de caixas. Para a temporada 2025/26, a projeção é de apenas 12,9 milhões de caixas.
O principal responsável por esse colapso foi o greening, doença sem cura que compromete os pomares. Agravada por eventos climáticos extremos, a doença expulsou produtores da atividade e transformou a Flórida em uma região dependente de suco importado.
O alerta norte-americano pesa diretamente sobre São Paulo, segundo o secretário de Agricultura e Abastecimento do estado, Geraldo Melo Filho. Na safra atual, o cinturão citrícola paulista e do Triângulo/Sudoeste Mineiro produziu 292,94 milhões de caixas, cerca de 76% da produção brasileira estimada.
“O Brasil responde por mais de 70% das exportações mundiais de suco de laranja, com São Paulo no centro dessa cadeia. Proteger os pomares paulistas é defender uma liderança construída com pesquisa, capacidade industrial e organização produtiva”, destaca Melo Filho.
Em novembro de 2023, a gestão paulista instituiu o Comitê Estadual de Combate ao Greening, que reúne cinco secretarias, institutos de pesquisa e o setor produtivo. Pela linha do Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap Combate ao Greening), foram liberados R$ 6,9 milhões no ciclo 2024/25 para a renovação de pomares. A atuação envolve ainda universidades, a Fapesp e, como parceiros privados, o Fundecitrus e o CitrusBR.
Na frente científica, o CPA Citros mobiliza R$ 90 milhões, em aportes públicos e privados, para acelerar novas soluções de manejo. “Um dos pilares dessa estrutura é o Centro de Citricultura Sylvio Moreira, em Cordeirópolis, que reúne o maior banco de germoplasma de citros do país”, enfatiza o secretário.
Fiscalização de mudas
O secretário afirma que também houve reforço na fiscalização. Em 2025, a Defesa Agropecuária esteve em mais de 17,5 mil estabelecimentos e retirou de circulação mais de 60,3 mil mudas. Nos casos previstos em lei, houve a eliminação de plantas contaminadas para proteger pomares vizinhos.
Foram destinados R$ 3,6 milhões para a contratação de novas equipes de fiscalização e monitoramento, com atuação regionalizada. As regras são adaptadas à realidade de cada região. Em maio de 2026, São Paulo tornou obrigatório o cadastro das propriedades com plantas cítricas e criou o monitoramento quinzenal do psilídeo, inseto que é o principal vetor do greening.
Os municípios são classificados pela incidência da doença. Atualmente, 75% deles são classificados como locais de alta incidência para a doença. Regras mais amplas são aplicadas onde a incidência é baixa e normativas mais concentradas em plantas jovens onde é alta.
“Esse conjunto de medidas está freando o greening em São Paulo. Em 2025, pelo segundo ano consecutivo, houve desaceleração no ritmo de crescimento: o aumento anual caiu de 55,9%, entre 2022 e 2023, para 16,5%, entre 2023 e 2024, e 7,4%, entre 2024 e 2025”, enumera o secretário.
Nos pomares mais jovens, a incidência caiu 51,4% nas plantas de zero a dois anos e 17,1% nas de três a cinco anos, reflexo de mais cuidado na escolha das áreas de plantio e melhor controle do inseto vetor. Melo Filho enfatiza que defender a citricultura é proteger empregos, investimentos e a capacidade brasileira de abastecer o mundo. “O exemplo da Flórida mostrou o custo de agir tarde”, constata.

