Plano Safra 2026/27: investimento supera custeio; entenda
O governo federal anunciou, no final de junho, R$ 610,3 bilhões para o Plano Safra 2026/27, voltado à agricultura empresarial e familiar. Um detalhe chamou a at

O governo federal anunciou, no final de junho, R$ 610,3 bilhões para o Plano Safra 2026/27, voltado à agricultura empresarial e familiar. Um detalhe chamou a atenção de especialistas: enquanto o valor para linhas de investimento subiu de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões (alta de 38,1%), as verbas de custeio e comercialização caíram de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões (recuo de 7,2%).
O aumento no investimento se deve, entre outros fatores, à ampliação de linhas com juros livres, diferentes da característica tradicional do Plano Safra. Programas de sustentabilidade e transição energética também foram fortalecidos com mais recursos e juros menores.
Para o consultor jurídico e ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, José Carlos Vaz, o governo prioriza investimentos por seu maior apelo político. Para os bancos, o custeio tem mais peso. “Anunciar grandes volumes de recursos com ênfase no investimento é uma forma do governo se apresentar melhor diante da população e do setor rural”, diz.
Do ponto de vista técnico, ele ressalta que o investimento muda o patamar tecnológico, enquanto o custeio pode ser obtido no mercado privado. Na prática, porém, não é o que acontece. “O Brasil contabiliza o subsídio ao investimento como se fosse destinado ao produtor quando, na realidade, ele é capturado por vendedores de máquinas e equipamentos. No custeio, grande parte do benefício acaba sendo apropriada pelos fornecedores de insumos”, explica Vaz, comentarista do Canal Rural.
O “seguro informal” do produtor
Apesar das taxas elevadas fora das linhas subsidiadas, Vaz aponta que o produtor rural aceita contratos de investimento de longo prazo por sobrevivência financeira. Ele utiliza o crédito como proteção contra intempéries. “O produtor sabe que, ao contratar um financiamento de investimento por dez anos, ele ganha um mecanismo de defesa. Se houver uma quebra de safra ou uma catástrofe climática, ele consegue pleitear a prorrogação desse débito. No fundo, o financiamento de investimento funciona para o produtor como um seguro rural indireto mediante a dilação do crédito”, explica.
Sob a ótica de mercado, o consultor acredita que o cenário ideal seria outro: “O produtor ficaria em uma situação muito melhor se guardasse o dinheiro para comprar seus equipamentos à vista, em vez de se amarrar a longos financiamentos”, diz.
Linhas tradicionais do Plano Safra seguem pressionadas
Embora o aumento no aporte de investimentos chame a atenção, programas para aquisição de máquinas e armazéns encolheram. Segundo levantamento da Cogo Inteligência em Agronegócio, o orçamento do Moderfrota passou de R$ 12,58 bilhões em 2025/26 para R$ 5,8 bilhões em 2026/27, queda de 54%. O volume para o PCA (-28%), o Inovagro e o Renovagro também caiu em relação à safra passada.
Se o orçamento das principais linhas de financiamento de máquinas e armazéns diminuiu, como o volume geral para investimento conseguiu crescer 38,1%? Para Vaz, a explicação passa pela dependência crescente dos recursos livres de mercado. “Quem decide financiar, na prática, é o Banco do Brasil e o BNDES, e no caso das máquinas, os bancos de montadoras e os bancos privados, como o Bradesco”, explica.
Além disso, o espaço deixado pelas linhas tradicionais abriu caminho para programas focados na transição tecnológica e energética das propriedades. Essa guinada em direção à matriz limpa no campo, segundo Vaz, não é por acaso. “O Brasil assumiu compromissos internacionais severos de sustentabilidade. A grande demonstração prática e política de que o país está cumprindo essas metas diante do mundo é a contratação de linhas de investimento voltadas à conservação ambiental. É a nossa vitrine lá fora”, conclui.









