Mercado de arroz: oferta restrita e incertezas marcam ponto de inflexão
O mercado brasileiro de arroz passa por um momento de mudança. Após um período com margens negativas e excesso de oferta, os preços começam a se recuperar. Essa

O mercado brasileiro de arroz passa por um momento de mudança. Após um período com margens negativas e excesso de oferta, os preços começam a se recuperar. Essa alta não é mais pontual e reflete fatores como a disponibilidade do produto, o comportamento dos produtores e as exportações. Ainda não é possível afirmar que o setor entrou em um novo ciclo, mas a configuração do mercado já não é a mesma dos últimos semestres.
A redução da oferta disponível é um dos motivos dessa mudança. A comercialização está mais seletiva e a originação do produto é mais difícil em todas as regiões produtoras. Os produtores, que venderam grande parte da safra a preços baixos, agora administram os estoques de forma estratégica, vendendo apenas o necessário para cobrir compromissos financeiros. Esse comportamento ocorre em um momento em que o setor começa a projetar a safra 2026/27.
Perspectivas para a oferta e demanda
As expectativas para o futuro são mais positivas. Nos Estados Unidos, a redução da área plantada e da disponibilidade para exportar deve diminuir a concorrência internacional. Na Ásia, a oferta está mais ajustada e há preocupação com a produção futura. No Brasil, a redução da área cultivada, os custos altos, as restrições de crédito e os riscos do El Niño podem limitar os investimentos e afetar a produtividade. Se isso se confirmar, a oferta futura deve ser menor, o que pode equilibrar o mercado em 2027.
Exportações e balança comercial
As exportações têm sido o fator de maior influência na sustentação dos preços. Elas ajudam a reduzir os excedentes internos e a equilibrar oferta e demanda. Entre março e junho, o Brasil embarcou mais de 670 mil toneladas de arroz em casca, com superávit comercial de 53 mil toneladas. Em julho, o ritmo diminuiu. Até a quarta semana, as exportações somavam 130,4 mil toneladas e as importações, 143,6 mil toneladas, gerando um déficit de 13,2 mil toneladas. Apesar disso, há embarques programados, principalmente para a Venezuela, e o line-up indica continuidade das vendas externas.
A meta do setor é exportar cerca de 2 milhões de toneladas na temporada. Esse volume é visto como necessário para acelerar a redução dos estoques e permitir uma recuperação mais consistente dos preços.
Estoques públicos e incertezas
O mercado começou a temporada com estoques superiores a 2 milhões de toneladas. Esse volume ainda limita a alta dos preços. A estratégia era ampliar as exportações para reduzir esse excedente. No entanto, o anúncio do governo federal de comprar 310 mil toneladas de arroz em casca, por meio da Aquisição do Governo Federal (AGF), gerou incerteza. A justificativa oficial é recompor os estoques públicos e fortalecer a Política de Garantia de Preços Mínimos. O mercado, porém, teme que a medida estimule a retenção de estoques em um momento decisivo para as exportações.
Momento decisivo para o setor
O mercado de arroz vive um momento decisivo. Depois de mais de um ano de margens negativas, perdas financeiras, eventos climáticos extremos no Rio Grande do Sul e crédito restrito, qualquer mudança nas expectativas afeta o comportamento dos agentes. Intervenções precisam ser calibradas, esclarecidas e previsíveis para não gerar sinais contraditórios.
O setor necessita de políticas estruturantes para enfrentar seus desafios, como custos de produção elevados, restrições ao crédito e infraestrutura. A recuperação da cadeia produtiva depende do fortalecimento desses pilares, preservando os mecanismos de mercado e dando segurança para produtores e indústrias. Em um ambiente fragilizado, decisões baseadas em fundamentos, planejamento e previsibilidade são essenciais para uma recuperação sustentável. O mercado pode conviver com oscilações de preços, mas não absorve bem incertezas adicionais em um momento de reconstrução.
*Evandro Oliveira é graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e especialista de Safras & Mercado para as culturas de arroz e feijão.


