Cortes e clima extremo ameaçam seguro rural em 2026
A indústria de seguros projeta mais um ano difícil para o segmento rural, diante dos cortes na subvenção federal e do aumento dos juros. Em 2025, o governo bloq

A indústria de seguros projeta mais um ano difícil para o segmento rural, diante dos cortes na subvenção federal e do aumento dos juros. Em 2025, o governo bloqueou R$ 445,1 milhões do programa de subsídios, do total de R$ 1,06 bilhão previsto no orçamento original. A taxas básicas de juros subiram para 15%, e os eventos climáticos extremos agravaram a situação.
A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) estima queda de 3,9% na arrecadação do seguro rural em 2026, após o tombo de 8,8% no ano passado, quando o setor somou R$ 12,9 bilhões. A nova projeção representa piora em relação à expectativa anterior, de crescimento nominal de 2,3%. Também contrasta com a expansão de 5,7% esperada para o total de receitas do setor.
A guerra no Irã aumenta a volatilidade dos preços das commodities e reduz as margens do produtor. “Somando o custo de produção elevado e o endividamento em alta com a falta de apoio do governo, o produtor acaba não conseguindo comprar o seguro”, afirma Gláucio Nogueira Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg). “Isso leva o mercado a adotar uma postura mais seletiva”, complementa.
Queda de braço com o governo
O setor segurador aguarda o pagamento de mais de R$ 300 milhões da subvenção prometida para 2025, cerca de 70% do total, segundo Toyama. As empresas cobram previsibilidade para as dotações de 2026 e pressionam pela reversão dos cortes. Ainda não houve reunião com o Comitê Gestor Interministerial para o Seguro Rural que definiria os parâmetros deste ano. “Estamos no escuro”, reclama.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alega restrições fiscais para justificar os bloqueios. No início do ano, Lula vetou um trecho da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que blindava os recursos ao seguro rural contra o contingenciamento e o tornava despesa obrigatória. O Ministério da Agricultura não respondeu aos questionamentos da reportagem.
A área agrícola segurada no Brasil caiu de 13,7 milhões de hectares no começo da década para pouco mais de 3 milhões em 2025, o que representa apenas 3,3% do total. Nos Estados Unidos, cerca de 227 milhões de hectares estão protegidos, segundo a National Crop Insurance Services.
Ciclo vicioso
Rodrigo Motroni, vice-presidente-executivo de Riscos e Operações na Newe Seguros, alerta que a falta de acesso ao seguro rural pode deflagrar um “ciclo vicioso”. Sem a cobertura, o produtor que enfrenta perdas não consegue renegociar dívidas, reduz investimentos e fica mais exposto na safra seguinte. “O produtor que já tem custos muito altos precisa de ajuda estatal para fazer a contratação do seguro”, afirma. Para ele, o seguro rural precisa ser tratado como política de estado, com mais previsibilidade nos subsídios.
Motroni cita exemplos externos: “O programa de subvenção chinês investe algo da ordem de US$ 10 bilhões no seguro rural e a gente não consegue chegar nem a R$ 1 bilhão”. O setor articula em Brasília a criação de mecanismos para tornar a subvenção mais perene. A CNSeg propõe a estruturação de um fundo de estabilização para compensar anos de alta sinistralidade e reduzir a volatilidade dos prêmios.
Congresso discute projeto de lei
Em dezembro, a Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) aprovou um projeto de lei de autoria da senadora Tereza Cristina que busca impedir o contingenciamento de recursos do programa. O texto propõe alterar a natureza da despesa com os subsídios, de discricionária para obrigatória, e permite ao governo promover incentivos, como juros mais baixos. “Esse projeto de lei vem para ajudar a criar mais previsibilidade”, comenta Motroni.
Toyama, da FenSeg, considera a aprovação do projeto importante para pavimentar a recuperação do seguro rural. Representantes do setor estão trabalhando com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Congresso para evitar novos cortes na subvenção. “Com isso, em 2027 possivelmente teremos uma melhora nas condições para os produtores”, destacou.

