Trigo: entressafra estratégica pressiona preços no Brasil
A entressafra de trigo no Brasil é um período desafiador, não pela falta total do produto, mas pela combinação de fatores que limitam a disponibilidade, especia

A entressafra de trigo no Brasil é um período desafiador, não pela falta total do produto, mas pela combinação de fatores que limitam a disponibilidade, especialmente de trigo com qualidade superior.
O primeiro ponto é a oferta limitada no Mercosul. A quantidade que resta no Brasil e nos países vizinhos é pequena. Há algum movimento, como entregas recentes do Paraguai para o Paraná, mas é insuficiente para mudar o mercado de forma relevante. A oferta existe, mas é escassa, fragmentada e muito seletiva.
Há um contraponto. A Argentina ainda tem um volume considerável de trigo. Isso poderia sugerir maior conforto na oferta regional. Na prática, esse volume não se torna totalmente útil para a indústria brasileira. A limitação está na qualidade, com falta de trigo com teor de proteína mais alto. Assim, mesmo com oferta em quantidade, a restrição de qualidade reduz muito sua aplicação, principalmente para moinhos que usam blends mais exigentes. Isso reforça a sensação de um mercado apertado.
No aspecto logístico, o momento também traz limitações. A prioridade é o escoamento da safra de verão, o que reduz a eficiência para o trigo, tanto no transporte interno quanto na capacidade de armazenagem nos portos. Além disso, há aumento dos custos de frete rodoviário, o que encarece o transporte entre regiões e reduz a fluidez dos negócios.
Esse cenário fica mais complexo no contexto internacional. Tensões geopolíticas envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel aumentam a volatilidade no mercado de energia, com reflexos diretos nos custos de frete marítimo. Em um momento em que o Brasil depende mais de origens fora do Mercosul para suprir falhas de qualidade, esse encarecimento logístico ganha peso na formação de preços e nas decisões de compra.
Nesse ambiente, cresce a necessidade de diversificar as origens. O trigo russo se destaca pela competitividade de preço no FOB, embora parte dessa vantagem seja absorvida pelo frete mais alto. Já o trigo norte-americano (HRW), tradicionalmente mais caro, fica ainda menos competitivo em custo final, mas continua sendo uma alternativa para moinhos que precisam de qualidade consistente. Essa mudança no mix de origens acontece sob uma estrutura de custos mais pressionada, exigindo mais precisão nas decisões de compra.
Os impactos regionais são diferentes. Moinhos no Sul, principalmente os que se adiantaram nas compras, operam com mais previsibilidade. Por outro lado, nas regiões do Sudeste para o Norte, a dependência de importações, somada à menor disponibilidade de trigo de qualidade, torna o cenário mais restritivo, com maior exposição a custos logísticos e variações no câmbio.
Outro ponto de atenção é o comportamento da demanda. Em um ambiente de custos altos e margens apertadas, a indústria tende a ser mais cautelosa, ajustando blends, adiando compras quando possível e buscando mais eficiência no uso da matéria-prima. Ainda assim, a necessidade de manter a qualidade final dos produtos impõe limites a essa flexibilização.
Para que a conta da indústria feche, um movimento de alta nos preços da farinha se torna cada vez mais provável. Essa necessidade fica mais clara com a forte queda nos preços do farelo vista nas últimas semanas.
Ao analisar a composição da receita da moagem nos últimos cinco anos, vê-se que o farelo representa, em média, um adicional de mais de 10% sobre a receita gerada pela farinha. É uma participação que pode parecer modesta, mas, em vários momentos, esse componente é decisivo para sustentar as margens operacionais dos moinhos.
A entressafra atual também traz sinais importantes para a próxima temporada. A expectativa de redução da área plantada, somada aos riscos climáticos do El Niño, principalmente na Região Sul, reforça a sensação de uma transição potencialmente apertada entre safras. Nesse contexto, produtores com estoques remanescentes tendem a encontrar melhores oportunidades de venda, embora ainda enfrentem pressão de custos e seletividade por qualidade.
Em resumo, a entressafra de trigo no Brasil não se define apenas pela escassez, mas pela complexidade. É um período em que qualidade, logística, câmbio e estratégia de compra assumem um papel central. Decisões tomadas antes tendem a diferenciar quem gerencia risco de quem apenas reage a ele.
Quando a logística fica restritiva e a qualidade escasseia, o mercado deixa de ser confortável e passa, inevitavelmente, a ser estratégico.
*Élcio Bento é especialista em trigo graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Faz parte da divisão de especialistas de Safras & Mercado há mais de 20 anos.
O trigo é um dos cereais mais consumidos no mundo, e o Brasil é um grande comprador internacional. A produção nacional ocorre principalmente nos estados do Sul, como Paraná e Rio Grande do Sul. A busca por autossuficiência é um objetivo antigo, mas fatores como clima e rentabilidade do plantio ainda desafiam os produtores. A qualidade do grão colhido aqui é um ponto constante de discussão entre agricultores e a indústria moageira.
Outro aspecto relevante é a relação entre o preço do trigo e os derivados para o consumidor final, como pães e massas. Oscilações no custo da matéria-prima impactam diretamente a cadeia de alimentos. Por isso, o período entre safras é acompanhado de perto por todos os envolvidos, do campo à panificação.


