Tech do agro combate inadimplência com dados
Um novo sistema de avaliação de risco foi lançado para o setor do agronegócio. A ferramenta, chamada de score de risco produtivo, visa ajudar instituições finan

Um novo sistema de avaliação de risco foi lançado para o setor do agronegócio. A ferramenta, chamada de score de risco produtivo, visa ajudar instituições financeiras a analisarem a capacidade de pagamento dos produtores rurais com base em sua produtividade.
Em 2025, empresas do agro representaram 30,1% dos pedidos de recuperação judicial no país, de acordo com um estudo da Serasa Experian. Por isso, bancos e cooperativas estão exigindo mais garantias na hora de conceder crédito rural.
A empresa Picsel desenvolveu a tecnologia, que é apresentada como a primeira do tipo no mercado brasileiro. Ela mede a capacidade produtiva das lavouras para dar mais informações aos credores.
O sistema funciona de modo parecido com os scores de crédito tradicionais, mas usa variáveis ligadas à produção no campo. A análise considera mais de 30 anos de dados históricos, avaliando até 30 safras agrícolas.
As cinco safras mais recentes têm um peso maior no cálculo. Isso permite que o indicador mostre com mais precisão a situação produtiva atual das propriedades.
A base de dados cobre todo o território nacional e inclui as principais regiões agrícolas. Segundo a empresa, a solução contempla 100% da produção nacional de soja e milho.
Juntas, essas duas culturas representam cerca de 88% da produção de grãos do Brasil. Isso permite que o modelo capture grande parte da dinâmica produtiva do agro.
Dívidas rurais
O lançamento ocorre em um momento de fragilidade no financiamento do setor. Dados do Banco Central mostram que o volume de dívidas rurais renegociadas já chega a R$ 37 bilhões.
A inadimplência do crédito rural ficou em cerca de 6,5% em 2025. Esse número é mais que o dobro do registrado no ano anterior.
Especialistas apontam que custos altos de produção, volatilidade nos preços das commodities e eventos climáticos extremos ajudam a explicar o aumento da inadimplência.
Diante desse cenário, o CEO da Picsel, Vitor Ozaki, acredita que há uma lacuna na avaliação de risco. Ele diz que a maioria das análises ainda olha principalmente para informações financeiras e histórico de crédito.
“O mercado financeiro sempre avaliou o produtor rural principalmente sob a ótica do crédito. Mas no agronegócio existe um fator determinante que muitas vezes não entra na equação: a capacidade de produzir”, afirma Ozaki.
Geração do score
Para criar a pontuação, a solução reúne diferentes fontes de informação. São usadas imagens de satélite, dados climáticos históricos, informações de solo e bases públicas como MapBiomas e o CAR.
As análises combinam dados de sistemas de satélites como o Sentinel e bases da Nasa, além de informações meteorológicas e indicadores de produtividade.
Esses dados são processados por modelos de inteligência artificial que geram um índice único de risco produtivo. A análise é feita sobre áreas produtivas específicas, e não necessariamente sobre o produtor.
Isso significa que um mesmo agricultor pode ter avaliações diferentes para cada uma de suas propriedades ou talhões. A avaliação resulta em uma pontuação que vai de 0 a 1000 pontos.
Valores mais altos indicam menor risco produtivo e maior estabilidade na produção. A plataforma também mostra uma estimativa da capacidade produtiva média da área, em quilos por hectare.
Na prática, o indicador serve como um termômetro de risco agrícola para bancos, cooperativas, tradings e outras empresas do setor. A ideia é que as instituições possam ajustar suas políticas de crédito com base nessa informação.
A ferramenta também permite relacionar quebra de safra com inadimplência. Essa informação pode impactar a gestão de risco e o provisionamento para perdas de crédito.
Segundo Ozaki, incluir a capacidade produtiva na análise tende a mudar a forma como o mercado financeiro se relaciona com o agro. Ele afirma que isso permite construir ofertas mais adequadas ao perfil de cada produtor.


