Cessar-fogo EUA-Irã: trégua no agro, não garantia
O anúncio de um acordo provisório entre Estados Unidos e Irã e a consequente perspectiva de reabertura do Estreito de Ormuz foram recebidos com alívio pelos mer

O anúncio de um acordo provisório entre Estados Unidos e Irã e a consequente perspectiva de reabertura do Estreito de Ormuz foram recebidos com alívio pelos mercados globais. Para o agronegócio brasileiro, a notícia é particularmente relevante, pois a região concentra uma parcela significativa da produção e exportação mundial de fertilizantes e insumos essenciais para a agricultura.
A reação inicial dos mercados foi positiva, mas ainda com cautela. O petróleo deu sinais de recuo, os custos logísticos começaram a ser reavaliados e as preocupações imediatas com o abastecimento global de fertilizantes diminuíram. O Ministério da Agricultura destacou que a normalização da navegação em Ormuz pode contribuir para aliviar os custos de fertilizantes e diesel, dois insumos estratégicos para o campo brasileiro.
O que existe hoje não é um acordo de paz definitivo, nem um prazo para a reabertura do estreito. O entendimento entre Washington e Teerã estabelece um cessar-fogo e abre uma nova etapa de negociações sobre o programa nuclear iraniano. O prazo previsto para essas negociações é de aproximadamente 60 dias, período durante o qual o mercado continuará monitorando a implementação dos compromissos. O mercado está precificando uma redução do risco imediato, não a solução definitiva da crise.
Essa distinção é importante para o agronegócio brasileiro. O setor depende da previsibilidade para contratar fretes, negociar importações, planejar estoques e estruturar o financiamento da safra. Mesmo que a navegação seja retomada, a normalização logística tende a ser mais lenta do que a diplomática. Armadores, seguradoras e operadores logísticos ainda precisam reconstruir a confiança na região. Os custos de seguro permanecem elevados, contratos precisam ser renegociados e os estoques globais passarão por um processo de recomposição.
A expectativa mais realista para os fertilizantes não é uma queda abrupta de preços, mas um movimento gradual de estabilização. O fim da pressão geopolítica remove um importante fator de alta, mas não elimina automaticamente os custos acumulados.
A crise reforça uma vulnerabilidade estrutural do Brasil. Mais de 80% dos fertilizantes utilizados pelo agronegócio brasileiro são importados. Essa dependência levou o país a estruturar o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), para aumentar a segurança de abastecimento. O objetivo do plano é ampliar a resiliência da cadeia por meio da ampliação da produção nacional e da diversificação de fornecedores.
Nos últimos anos, o Brasil avançou na diversificação de suas origens de fornecimento. Entretanto, a crise mostrou uma limitação: boa parte dos países que ganharam relevância como fornecedores alternativos, como Catar, Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes Unidos, está localizada na mesma região e depende das mesmas rotas marítimas. Mesmo sem participação direta no conflito, esses países permanecem expostos aos efeitos de qualquer instabilidade em Ormuz.
Ao mesmo tempo, uma nova preocupação ganha espaço. Se durante a crise a principal pergunta era se haveria fertilizantes, agora a discussão se desloca para a capacidade de compra do produtor rural. O setor chega à próxima safra com endividamento elevado, margens apertadas e restrições de crédito. A recente aprovação pelo Senado de mecanismos para renegociação de dívidas rurais ganha relevância. A recuperação do setor depende não apenas da oferta global de insumos, mas também da capacidade financeira dos produtores.
A possível reabertura de Ormuz reduz um risco importante para o abastecimento global de fertilizantes. O episódio deixa duas mensagens para o Brasil. A primeira é que a dependência de insumos importados continua sendo uma vulnerabilidade estratégica. A segunda é que a competitividade do agro depende também da capacidade financeira do produtor.
Rebeca Lucena é diretora de Relações Governamentais da BMJ Consultores Associados e cofundadora da rede Women Inside Trade (WIT)
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.


